Essa é a pergunta que o ano de 2005 não respondeu. Nunca tantas evidências de crimes foram levantadas contra um governo. O esquema do 'valerioduto' foi provado até as últimas conseqüências. Parlamentares receberam dinheiro canalizado pelos donos do poder em troca de alguma coisa. Os indícios de corrupção, como qualquer inocente sabe, superaram amplamente o que ocorreu durante o 'caso Collor'. Por que, então, Lulla se manteve no Planalto rindo ironicamente e despejando as suas metáforas futebolísticas de segunda divisão? Por que Lulla já pode pensar em reeleição e partir para o ataque, bombardeando a imprensa que revelou a sua nudez, numa radiografia política que o mostrou pelo avesso, esquerdista transfigurado no seu abominável contrário? Será uma questão de provas?
Fernando Collor foi absolvido na Justiça por falta de provas. Nesse caso, a Justiça errou? José Dirceu caiu garantindo que nada foi provado contra ele. O que significa 'provar'? A explicação para a permanência de Lulla passa por essa resposta. O tal 'patrimônio ético' do PT transformara-se numa tão poderosa arma de guerra política que fazia da própria denúncia uma prova. Se o PT, representante da verdade e da honestidade, dizia algo, então só podia ser verdade. Sendo público e notório, ainda mais sendo dito por quem de direito - o PT -, qualquer prova formal se tornava redundante. Para que provar aquilo que por si mesmo se apresentava como provado?
A capacidade do PT de colar etiquetas, fazer caricaturas, distribuir rótulos e cristalizar imagens, desqualificando adversários ou construindo mitos, ainda terá de ser melhor estudada, pois poucas vezes uma máquina simbólica foi tão eficiente e impiedosa. Collor não foi derrubado pela Rede Globo como dizem os petistas. Foi apeado do poder pela extraordinária força crítica de um partido que nem sequer era majoritário no parlamento. Por que a oposição atual não fez o mesmo com Lulla? Existem razões objetivas e razões subjetivas para isso. Objetivas: a oposição nunca desejou realmente a saída de Lulla; o setor financeiro está feliz com o governo do PT; o sistema petista de cooptação nunca parou de funcionar, os sindicatos, que pesaram contra Collor, são petistas, etc.
As razões subjetivas, porém, com certeza tiveram influência maior. Contra Collor, era a esquerda, suposta representante do bem, lutando contra a direita, encarnação do mal. A mitologia teve um papel de ponta. Derrubar o operário que chegou ao poder não tem o mesmo apelo, não produz a mesma novela, não arranca as mesmas lágrimas, não dá a cada um a sensação de estar praticando o supremo bem. A história é uma construção folhetinesca. A Globo não fez uma minissérie sobre Getúlio quando dos 50 anos do suicídio do homem que mudou o Brasil. Mas vai mostrar uma série que dará a JK um destaque absoluto. Por quê?
Getúlio, além de ter sido inimigo de Roberto Marinho, foi também um ditador. Não caberia no papel de herói mitificador desejado.
Os comunistas, durante o Estado Novo, mandaram executar uma jovem chamada Elsa, acusada de traição. Isso não dá filme nem comove as massas. Mas o triste destino de Olga Benário, extraditada para a Alemanha, onde morreu na câmara de gás, sim, ainda mais se apresentado como uma relação causal propositada: Getúlio mandou Olga para a câmara de gás. Em 1936, quando Olga foi deportada, isso não existia. Não importa. A realidade é uma construção social cujos tijolos são crenças, mitos e propaganda. Lulla foi salvo pela sua sombra. Nem tanto pelo seu passado. Muito mais pela reelaboração mítica do seu passado. Enganam-se os que vêem Lulla como uma invenção de Duda Mendonça. Lulla é uma invenção coletiva do marketing e do imaginário universal da esquerda. Não importa aquilo que faz.
Importa o que se imagina que ele é. Lulla, porém, é muito mais inteligente do que se pensa e há muito não crê mais em seu mito, a não ser como marketing de campanha ou como instrumento de permanência no poder. Sabe que quando o PT acusava alguém, não havia necessidade de prova, visto que o PT era a própria prova. Sabe também que contra o PT nada pode ser provado, pois toda prova será racionalizada como uma estratégia ilegítima contra o seu mito. O único inimigo capaz de derrotar o PT era o próprio PT. Está feito. Resta o mito. A sombra sempre morre depois do dono.
Juremir Machado da Silva
Correio do Povo - Porto Alegre - RS - Brasil